Home  
Home
Informazioni
Davidiana
Attività
Biblioteca
Premio Europa DMF
Lusitania
Link utili
Ringraziamenti





Password dimenticata?

David Mourão-Ferreira - Escultor de palavras

de
Francisco Simões

David Mourão-Ferreira, que em 1950 publica o seu primeiro livro de poesias, A Secreta Viagem, inicia a sua viagem com pelo menos duas convicções: a primeira, a de que não iria só - certeza que afirma e expressa duma forma que considero premonitória,

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou
.

a segunda, uma convicção, por certo, inconsciente, de que viria a ser um extraordinário escultor da palavra em língua portuguesa. E é, justamente, no seu primeiro livro, e com vinte anos de idade, que este poeta executa a sua primeira escultura conhecida:

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais e de madeira à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa...
(…)
Agora sei que és tu quem me fora indicada,
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

E prossegue o seu labor poético e “plástico” em torno da mulher e da arte:

Imaginei-te assim à beira mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E sobretudo deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito.

Se nos poemas citados a alusão à escultura e ao desenho é explícita, não podemos deixar de sentir que em textos poéticas, a mulher é descrita como se fosse observada e modelada pelos olhos e mãos de um escultor.

Desejei-te pinheiro à beira mar
para fixar o teu perfil exacto.
Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Em Tempestade de Verão (1950 - 1953), o poema “Cousas do Mar” oferece-nos uma das mais belas imagens estéticas, em que a escultura e a pintura são magicamente misturadas. O poema de um profundo lirismo camoniano poderá ser a descrição de uma bela peça escultórica renascentista, polícroma, sem excesso.

Corpo de nuvem que, do mar saída,
volvida em chuva para o mar voltou,
quem te arrancou de mim? Quem te deu vida,
corpo que do meu corpo se arrancou?

Já foste, não sei quando despedida.
Quem para mim de novo te arrastou?
E quem te esparge em vozes diluída,
corpo de nuvem neste mar que sou?

Mas a carne que escorre de repente
da bátega dos sons é tão ardente
Que de repente o próprio mar flutua,

sobre si mesmo volve e ao céu ascende
- pois só no céu, no céu é que se prende
o vulto de uma nívea nuvem nua!

Saliento este poema que, embora não contendo qualquer palavra pertencente ao campo lexical da escultura, é para mim um dos mais representativos da percepção sensorial própria do artista plástico. Construído em torno da metáfora “corpo-nuvem”, apela de forma singular aos sentidos da visão e do tacto. Ao atribuir ao corpo a plasticidade própria da nuvem - forma em movimento que se desdobra numa infinidade de outras formas – são desencadeadas imagens plástico-escultóricas, marcadas pelo movimento sóbrio, pela leveza, atributos da quase imaterialidade dum “corpo” que é simultaneamente “vulto”. Os materiais, os mármores brancos níveos como as nuvens, transparentes, luminosos, os rosas de pele imaculados e virgens, os cabelos entre soltos e molhados, de um mármore negro que não se vê, são possibilidades de materialização escultórica a partir da sugestão do texto.

Escultor de corpos que utiliza matéria muito nobre - palavras. Escultor de corpos em palavras, onde a beleza do feminino e o toque sensual conferem às formas um subtil erotismo, tornando-as visuais e tácteis. Talvez a mesma emoção que Rodin imprimiu à sua escultura “O Beijo” ou a mesma serenidade que Miguel Ângelo esculpiu no rosto da Pietá.

Nem todo o corpo é carne... Não nem todo.
Que dizer do pescoço às vezes mármore...?

Infinito Pessoal (1959 - 1962)

Do seu livro In Memoriam Memoriae (1962)

(...) Mármore, sim, mas mole. E vento porque não?
Mármore capaz de tudo, de tudo recolher
(…) Mármore, sim, mas mole.
E mais que mármore mar - que dentro de nós more.

É o escultor na ânsia de participar no mistério da pedra, de fazer ressurgir as formas nela contidas e de, nessa transmutação, a eternizar e divinizar. É um construtor de catedrais - não góticas - mas de belas catedrais femininas.

Já referi a essência erótica ou sensual da poesia de David, e como nesta dimensão se revela o poeta que percepciona o mundo e o interpreta, não apenas como poeta mas também como um esteta da forma e da cor. O modo como o seu imaginário poético se articula com o universo da forma (desenho e escultura) é disto significativo.

Percorro do teu corpo os templos todos
as colunas os áticos as fontes
Como se de romagem fosse a Roma

Não posso deixar de vos confidenciar qual é o sonho de muitos escultores: o melhor espaço para um escultor colocar as suas obras, melhor do que uma galeria, do que um museu, talvez mesmo do que uma praça, é um templo. E eis que metaforicamente David o conseguiu:

Esta mulher
no centro
do corpo traz uma ilha

Esta mulher
um templo
no centro da sua ilha

Esta mulher
o centro
já do templo não da ilha

Esta mulher
oh templo
de tudo na minha vida

Em toda a obra poética de David, sem excepção, os exemplos de que ali esteve e está o seu outro eu de escultor é inquestionável.

Um Amor Feliz é, de forma categórica, a confirmação de tudo o que já depreendemos através da sua poesia: a assunção de um eu desdobrado. Nele, o autor cria um narrador participante na acção e que corresponde à personagem Fernão - o escultor - e cria uma outra personagem, David - o poeta. Fernão, escultor, é o narrador que conduz a narrativa. Esta dualidade, este jogo de centros, de partilha de personalidades entre duas entidades, e a sua aparente simetria, encobre ainda mais o mistério da trama tão exemplarmente construída. A personagem escritor não escreve o romance; o escultor escreve-o. A narrativa mostra-nos, contudo, um escultor descrito com grande realismo, quase documentalmente retratado e um poeta a quem se atribuem características coincidentes com traços biográficos do autor - David Mourão-Ferreira. Será que estas personagens não são o desdobramento de um único eu? Poderemos entender a narrativa como um texto onde o autor se auto-retratou, numa espécie de jogo de espelhos?

O atelier, espécie de catedral do amor, é construído à semelhança daquele que David Mourão-Ferreira, seguramente, teria tido se fosse um escultor operativo. E é misterioso como este escritor desvendou os mais ínfimos pormenores da profissão de escultor: a personagem Fernão conhece e percorre as pedreiras do Alentejo:

“Lembras-te de quando andei com aquela ideia de comprar ou alugar um monte no Alentejo?”
“Lembro-me. Foi depois de teres vindo de Itália. Nessa altura só falavas nos mármores de Vila Viçosa. Que havias de mostrar ao mundo que não ficavam atrás dos de Carrara.”

E o escultor, tal como o poeta, elege o corpo da mulher como o centro da sua obra.

“Quer mesmo assim? Não prefere com o tronco todo?”
(...)
Não esperando resposta, já tirou pela cabeça a blusa de alças... e não tinha nada entre a blusa e a pele. Os dois seios, pequenos e sólidos de esmaecidas auréolas, atrevidamente disparavam os bicos para cima...
(...)

Eram mais estranhos que bonitos; menos atraentes que provocadores; e todavia, talvez mais excitados que excitantes.
(...)
Ao retirar a blusa tinha-me perguntado: é assim que fazem os modelos, não é?”

Mas é na sublime descrição que se segue, que nasce a mais esplendorosa escultura deste romance:

“E ainda mal nos tínhamos tocado, a Y e eu; ainda nem mesmo nos tínhamos beijado. Mas de repente é como se de repente nascêssemos ou morrêssemos nos braços um do outro: e estou já a correr o fecho éclair que lhe desce de entre os seios até aos confins do ventre. Ela própria liberta os ombros da parte superior do fato; o fato escorrega-lhe ao longo do corpo, só encontrando ligeiras resistências por altura das ancas e depois dos joelhos, para finalmente entre nuvem e pedra se lhe enrolar ao redor dos pés. Então o corpo descobre-se todo nu, inesperadamente nu, dando-me a repentina e absurda ilusão de que mesmo agora acabei de esculpi-lo...
(...)
Não devem fazer grande diferença, à luz da eternidade um ser vivo e uma estátua. Apenas questão de transformar em estátua o próprio corpo que os meus dedos só como estátua agora moldavam...
Mas não se julgue que para fazer figurar em qualquer galeria ou em qualquer museu...
Que destino então para essa estátua? Talvez alguma abside do purgatório, alguma loggia do paraíso... Talvez ainda, mais terra a terra, o simples santuário do próprio universo”

Na prosa, tal como na poesia, as mesmas imagens:

Esta mulher
oh templo
de tudo na minha vida

Após a publicação de Um Amor Feliz, surge o Corpo Iluminado. No seu prefácio escreve David Mourão-Ferreira:

“Desenhos para poemas, desenhos motivados ou inspirados por poemas: não têm conta. Mais inabitual, raro até se não raríssimo, se mostra o percurso contrário: o dos textos poéticos expressamente escritos para desenhos. Foi este, no entanto, o que na génese do Corpo Iluminado se verificou e o que hoje determina a sua existência de “criatura bifronte”.

E acrescenta:

“São os poemas que ilustram os desenhos? São os desenhos que iluminam os poemas? Uns e outros reciprocamente se iluminam, ao mesmo tempo que sobretudo procuram iluminar a mais esplendorosa e a mais insondável das realidades: o corpo da Mulher.”

David reforça ainda mais a comunhão das duas corporeidades - o desenho e a poesia - dizendo que “se trata afinal de um único poema, de um cântico de acção de graças, de um hino de júbilo e celebração (...)” e continua, citando André Pieyre de Mandiarques: “ o simples contorno de um corpo de mulher é a primeira afirmação da inteligência da vida.”

É na iluminação poética destes corpos que o poeta demonstra, mais uma vez, e como sucede desde A Secreta Viagem (1950) , o seu engenho escultórico, quando escreve:

Em que túnica de pedra
te encontras ainda presa

Que pedra os braços te aperta
Na pedra junto à cabeça

Que vestígio tens na perna
de meia de pedra preta

Ou és tu feita de pedra
mas perto de ser de seda

Ou só atrais quem te perca
pra que em pedra te convertas

O que pedes O que esperas
Que anoiteça Ou que amanheça

São os poemas que ilustram os desenhos? São os desenhos que iluminam os poemas? Uns e outros reciprocamente se iluminam. A consciência de que são irmãs gémeas as duas modalidades de expressão.

Concluo, extraindo do livro Jogo de Espelhos - reflexos para um auto-retrato, este retrato que David faz de si próprio:

Noutras encarnações desejaria vir a ser: escultor; geógrafo; consumado latinista; navegador solitário; cardeal “in partibus infidelium”.

É minha convicção de que o seu desejo de ser escultor, ainda que não concretizado, foi notavelmente sublimado numa das mais singulares obras literárias do século XX.